Heráclito/ Aforismo 52
Estamos todos expostos a ele, e não há como vencê-lo. Somos estranhos subordinados a esse fenômeno constante que acontece a cada dia, a cada momento. Tentam medi-lo e acreditam que podem calculá-lo. Mas ele é imprevisível e incontrolável. Alguns o sentem, outros acham que são imunes e não se importam com ele, mas sentem o peso que lança sobre os seus ossos.
Ele é a combinação “mais-que-perfeita” dos quatro elementos da natureza. Sólido e firme com a terra. Impossível de ignorar. Leve e ligeiro como o ar que passa na maior parte do tempo despercebido de nós, mas é parte fundamental da nossa existência. É agressivo, corrosivo, implacável e violento como o fogo. E escorre pelas nossas mãos com a mesma facilidade que um tantinho de água.
Falando assim, logo se imagina que se estamos nos referindo a um deus, ou a alguma entidade. E talvez sim. Talvez ele seja toda essas coisas. Talvez estejamos falando de um deus, de uma entidade, de uma pessoa, de um fenômeno, benção ou maldição que todos conhecem, respeitam e temem. O tempo.
A filosofia de Heráclito parte da premissa de que tudo está em movimento, tudo é movimento - Panta Rei, ou “tudo flui” ou ainda “tudo se mexe” -, exceto o próprio movimento. A vida, o tempo, tudo se move. Nada é estático. Se observarmos, até a mais mísera partícula da partícula, veremos que ela vibra, se move.
O tempo é intrínseco. Existe por e gera a si mesmo. Por mais que esta simples descrição lembre vagamente o conceito de physis, não seria prudente dizer que ambos são a mesma coisa. Entretanto, estão são inerentes um ao outro, e seria mais imprudente ainda dizer o contrário.
Enquanto acreditamos que, mesmo indomável, o tempo é algo que passa por nós, lançamos um véu de ignorância forçada sobre nós mesmos, e nos fechamos à realidade. O tempo não passa por nós, nós é quem passamos por ele. A prova disso, é a morte, é a vida, é o nascimento. Muitos nascem, crescem, vivem, morrem e o tempo permanecesse ali, constantemente correndo. Mas o tempo não é imutável, pelo contrário, o tempo é o criador de toda a mutabilidade que conhecemos. O tempo deu a Darwin a teoria da evolução, guardando nele tudo o que o cientista precisava. Deu a Cristo o direito de dividi-lo, deu a todos o direito de marcá-lo de algum modo e de por ele serem levados até a posteridade. Os cientistas e os filósofos já entenderam que o que muda, muda por causa do tempo. Tanto pelo chronos (quantidade de segundos, minutos anos, milênios), quanto pelo tempo (clima), tanto pelo tempo (duração de um fenômeno físico). Porque assim ele, o tempo, permite que seja.
Talvez o tempo não seja realmente assim, talvez estejamos creditando coisas demais a ele. Afinal, ceder a algo que nós nem temos certeza do que é, tantos poderes, pode ser uma tentativa de esconder o nosso desconhecimento. Enquanto isso não é certo, cabe-se continuar vivendo inserido nesse deus, fenômeno, entidade, medida e seja lá o que for.
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